Nos passos do tri campeão

 

Tomas Suchanek  Tri campeão mundial de Asa delta

Lembro-me que a alguns anos atrás li uma entrevista do Tomas e gostei muito, então depois de algum tempo e mais experiente e muito mais voado, e como blogueiro, resolvi comentar tal entrevista, quem desejar a entrevista na integra, basta procurar por Tomas Suchanek no Google e não será difícil de encontrar.

Para começar gostaria de introduzir Tomas aos leitores que não o conhecem ele é tri campeão mundial.

O que fez antes de voar?

Começou voando de aeromodelo quando tinha 6 anos, e com isso aumentou seu conhecimento em micro meteorologia e sensibilidade, também fazia suas próprias asas.

 

Com o relato acima percebesse que Tomas tinha uma ligação grande com o ar, vejo desta maneira, algumas pessoas se identificam com o mar, outras com a terra e outras o ar, o super campeão já sabia que seu elemento era o ar.

Com que idade começou a voar de asa delta?

Com quinze anos de idade.

Nesta idade os limites são maiores, somos quase que indestrutíveis, e com isso presumo que Tomas experimentou diversas situações que um piloto como eu que comecei aos 28 anos não experimentaria.

Quais eram suas dificuldades no começo?

A maior dificuldade se tornou benefício, pois sem carro para subir a montanha, era necessário levar a asa nas costas e por isso eram escolhidas pequenas colinas. Como a subida era árdua, se fazia necessário escolher a hora certa da decolagem e voar o lift e as térmicas com muita habilidade pois se errasse a nova tentativa seria impossível pela dificuldade da subida, então era uma única chance.

A necessidade faz o sapo pular, isso explica como Tomas se desenvolveu e o texto acima é auto-explicativo.

E seu nível acadêmico?

Estudou aerodinâmica na universidade e completou mestrado em engenharia espacial, mas além dos estudos formais, Tomas, no inverno devorava livros de meteorologia e conhecimento técnico de vôo, e depois aplicava na temporada de vôo, voltando a reler os livros no próximo inverno com a experiência da temporada de vôo anterior.

Ou seja, Tomas fazia a comprovação científica, com o conceito em sua mente bastava a ele executar, com a habilidade de voar lift, voar térmicas Tomas realizava as teorias estudadas e se não desse certo era porque a observação foi errada e isto já era um dado a mais em sua experiência. Se por exemplo estudo um determinado tipo de gatilho para térmicas mas não tenho habilidade plena em térmicas, posso erroneamente colocar em cheque o gatilho, quando na verdade o problema era comigo, com Tomas isso não acontece pois o cara tem habilidade, diminuindo as variáveis em seu aprendizado. Concluo que é primordial o aperfeiçoamento na técnica de voar lifts e térmicas.

Quais são suas habilidades físicas?

Estava em forma para voar 300 hs por ano e com isso conseguia voar uma asa maior do que a ideal e com isso tinha uma baixa taxa de descida. Fazia treinamentos de bicicletas que ajudaram nos campeonatos, já que sem os treinamentos seu rendimento caía nos últimos dias de campeonato. Também tinha uma visão acima da média, facilitando assim a observação de outras asas, pássaros e nuvens.

O vôo se aprende voando e seus músculos ficam preparados para a atividade exercida, não adianta um jogador de futebol treinar natação, pois não exercitará partes específicas que a atividade alvo exige porem para a parte aeróbica podemos escolher a que mais nos agrada em seu caso foi a bicicleta. Quanto ao tamanho da asa, é uma questão de momento que Tomas voada, atualmente se o piloto competidor utilizar uma asa grande  o mesmo terá muita dificuldade de ganhar uma prova, pois as fabricas colocam o peso ideal pensando em todos os parâmetros, tanto de afundamento quanto de velocidade.

O segredo na térmica?

A maioria dos pilotos podem fazer círculos no miolo da térmica, porém, poucos tem cuidado em se concentrar para fazerem cada círculo tão eficiente quanto possível. Os miolos estão sempre em movimento, mesmo térmicas suaves não permanecem estáticas. Eu checo meu progresso a cada 360º e faço ajustes onde necessário. Sempre trato de formar uma imagem em minha cabeça de onde está o miolo da térmica. Sempre trabalho para girar perfeitamente no centro do núcleo e de forma tão lenta quanto possível, logicamente com certa margem de segurança.

Em térmicas turbulentas, quando se tem tráfego ou perto das montanhas, não posso voar tão lentamente, porém nestas situações, vejo onde posso diminuir a velocidade com pequenos meio giros. A cada pequena oportunidade que podemos extrair do vôo, aumentam minhas possibilidades.

Quando os núcleos das térmicas estão muito quebrados é mais importante avaliar cada círculo. A presença de outros pilotos na térmica é muito importante para esta avaliação, já que ajudam a identificar onde as ascendentes estão melhores.

Se um piloto rapidamente cai, eu giro fechado para evitar aquela trajetória. As vezes pequenas ascendentes se elevam através da térmica e é possível girar fechado para ganhar altura entre os outros pilotos que se encontram nela. naturalmente se a térmica está muito cheia e confusa, não se pode fazer isto. Porém frequentemente as térmicas não são estáveis e é possível ganharmos altura fora do trafego nos concentrando em maximizar cada círculo.

Eu aborreço os pilotos que giram muito abertos nas térmicas (risos). Eles atrapalham todos, pois ninguém consegue voar no melhor do miolo sem que ocorra um conflito! Para isto, eu uso um truque: vôo bem atrás do piloto que está voando aberto, logo que sinto um golpe de ascendente, giro rapidamente mais fechado, por dentro, e logo fico acima e livre dele! Eu tendo a voar de modo meio agressivo nos pelotões de competição, até mais do que o Manfred disse, mas, este é meu estilo. Vôo atento as trajetórias dos pilotos e espero a oportunidade para sempre alterar minha trajetória para onde posso maximizar minha subida com segurança.

Nós sabemos que as térmicas são grandes massas com muitas toneladas e que possuem certa inércia. Isto significa que não se movem livremente com o vento como uma bola de sabão, mas sim, atuam mais parecido a um balão de ar quente amarrado. O ar flui ao redor e sobre a térmica, deformando-a um pouco. A imagem que tenho de uma térmica com o vento, inclui um incremento de ascendentes e descendentes nos dois lados: barlavento e sotavento, muito parecido com o fluxo em uma rocha colocada em uma corrente de água. Isto se deve a ascendente mecânica na parte frontal e a convergência na parte de traseira. Para fazer uso desta característica eu trato de fazer meu círculo na térmica de tal maneira, como se estivesse cavalgando sobre a crista deste anel externo, onde o ar sobe mais, admitindo que somente o centro é muito pequeno para um ganho eficiente.

Nesta situação o lado do barlavento é mais crítico devido a sua descendente mais forte na periferia da térmica. Frequentemente vejo pilotos voarem nesta borda e perderem alguns bons metros antes de voltar a achar o miolo. Isto significa que coloco em jogo toda a minha sensibilidade e concentração. Se tem algum segredo que eu possua para voar térmicas, é este modelo de térmica no vento e minha habilidade de surfar sobre esta crista.

Este eu fiz questão de copiar na íntegra, pois é muito bom.

Ganhou campeonatos sem variômetro?

Tomas voou muitos anos sem instrumento e por isso conseguia voar sem, normalmente quando usava era para confirmar o que estava sentindo.

Nós sentimos a térmica antes do barômetro acusar, pois existe um retardo, é interessante aguçar este sentimento.

O Que particularmente você olha com relação as nuvens?

Bem, novamente. Eu olho todos os sinais clássicos como definição das bordas, desenvolvimento vertical, bases planas e escuras, lado a barlavento, lado do sol e etc... cada nuvem conta uma história que podemos aprender a ler. A parte superior nos indica a direção do vento e o vento pode afetar a formação da ascendente em relação a nuvem. Eu olho principalmente o lado do barlavento primeiro. Busco uma forma delineada e a área de maior crescimento.

É muito importante caracterizar o estado da nuvem. Alguns dias as ascendentes são fracas e não duram muito, porém as nuvens resistem devido ao ar estar úmido no nível da nuvem. Outros dias as ascendentes podem durar um longo período, porém as nuvens desaparecem rapidamente devido ao ar estar seco. Em dias úmidos as nuvens são menos confiáveis e em dias secos fica mais difícil, já que elas aparecem e desaparecem rapidamente. Causando um certo problema.

Usualmente todas as nuvens são similares em um determinado dia, portanto, eu observo e aprendo sobre o ciclo de vida da nuvem vigente neste dia. Então no ar, imagino uns três passos à frente. Sempre estou observando duas ou três possibilidades muito antes de chegar em baixo de uma nuvem.

Não existe um substituto para o conhecimento da meteorologia. Esta ajuda a compreender a natureza das nuvens, temperaturas e fluxos do ar. Por isso eu recomendo um livro Understanding the Sky.

Outra vez copiei na íntegra, pois é um luxo a explicação.

Qual o exercício para melhorar?

Tentar eu seu local de vôo fazer vôos de ida e volta, para praticar o vôo no contra vento, também subir na termal e descer em espiral para subir de novo e praticar a otimização na termal.

Normalmente quando vou voar procuro fazer com vento de cauda, que torna o vôo mais longo e fácil, mas se tentasse fazer triangulações com certeza minha evolução seria maior.

 

Aconselho a todos lerem a entrevista na íntegra e tirar suas próprias conclusões.

Bons voos

- Agora quem não quer sou eu, você é o azarado rsrsrs, ou o sortudo

- Sortudo????

-Sortudo, as vezes a vida tira aquilo que não presta, quando a gente não se dá conta.

- Karapiiii gostei desta filosofia.

- Filosofia é o voar como um pássaro, sem sinais, eu decido para onde ir, apenas respeito as regras da natureza, quer experimentar?

- Tô sem grana.

- Relaxa, vamos voar e quando puder você me paga.

Não preciso dizer que fiz o cara economizar horrores com analistas,psicólogos, lembro perfeitamente seu relato durante o vôo, “ a vida é muito maior, não dá pra desperdiçar tempo, depois de voar posso fazer tudo, obrigado meu Deus, obrigado Paulo”

Para cada pessoa o vôo desperta um sentimento, uma alegria, um prazer e por mais vôos que já tenha feito é sempre uma percepção impar de cada pessoa com que já voei e vou voar.

Bons vôos